Era o Otacílio sentado no sofá. Muito tranqüilo coçando o olho direito enquanto lia trechos de Ilíada. Quer leitura mais tranqüila? Não se incomodava nem mesmo com os trens que passavam a duas quadras do apartamento, naquele sufocante serpentear sobre trilhos que nunca se atrasa. Após cada movimento ferroviário, Otacílio falava baixinho “14h30”, “16h”, “18h30”.
A vida daquela vizinhança era de qualidade invejável, já que ninguém gastava dinheiro com relógios, visto que os trens nunca se atrasavam e sempre passavam de hora e meia. Exceto nas madrugadas de sábado que, da meia noite às 5h, passavam a cada duas horas e meia, sendo o de passageiros da meia noite, o de carvão das 2h30 e o de grãos de café, trigo e feijão às 5h. Dá pra perceber que a vida da localidade era muito melhor assim do que com os relógios. Dava a impressão de que “o tempo acontecia”. Os habitantes nunca se atrasavam.
E Otacílio teve vontade de preparar uma bebida. Desceu à bodega e comprou uma garrafa de aguardente. Para ele, compensava comprar toda a garrafa do que pedir uma dose, já que uma dose na bodega do Farias custava $ 2,50 e a garrafa toda custava $ 5,00. Subiu as escadas e sacou a rolha ao chegar. Limpou o copo ideal e mediu a quantidade certa não com os olhos, mas com os ouvidos, ouvindo o sonzinho do copo enchendo, conforme caía o líquido de certa altura. O som da aguardente enchendo o copo lhe trazia o prazer que logo em breve seria saciado. Amortecer os lábios com ela, depois terminar de ler o volume no sofá, e esperar o trem das 18h30 passar.
Tomou salivosamente sua aguardente, apenas uma dose, não precisa de pressa. A leitura foi retomada com prazer e evolução, era envolvente. O olho coçou mais uma vez. A lâmpada estava desligada e o sofá perto da janela. O dia não estava tão luminoso como se podia esperar, mas também não estava escuro. A janela disse ao Otacílio: “vai chover, Otacílio”. O nosso amigo foi à janela, olhou lá fora, e parou um pouco. Reparou na bodega, nas casas ao lado. Ao longe reparou nas curvas que os trilhos faziam até sumirem no relevo aplainado pelo tempo. Reparou que o menino continuava a dar descontos em seus panfletos recém-escritos sobre os boatos da invenção de uma máquina mais divina que o trem. Otacílio gritou de lá de cima: “Ei, Vicente, menino Vicente! Não vou descer agora. Guarde um exemplar para mim, tudo bem, jovem agitador?” Otacílio fechou a janela após receber um pingo na língua enquanto falava.
Havia tempo para tudo, inclusive para ser perdido. Imagine que há o tempo de tudo durante o dia. Você pode escolher preenchê-lo, como também pode optar por deixar uma parcela dele para que você o mate. Pois bem, Otacílio escolheu a segunda hipótese. Matava o tempo como ninguém, mas mesmo assim ele ouvia os apitos e os estrondos dos trens, verdadeiros uivos das aproximações dos lobos a assustar e alertar as pessoas indefesas. Otacílio pegou a garrafa novamente e recebeu mais um golpe da cana.
Ao virar-se para a porta, esperou estático por segundos como se percebesse que algo fosse acontecer. Movido de uma sensibilidade próxima do sobrenatural, virou-se repentinamente para a janela fechada e, em posição de estalar os dedos. Estalou os dedos ao mesmo tempo em que o trem se anunciava, sincronicamente. Para ele, natural; para nós, surreal. Eram exatamente 18h30.
Saindo de casa, foi cautelosamente à bodega ter com o Vicente, filho do Farias, Dono do estabelecimento. Vicentinho tinha em torno de dez anos e tinha paixão por notícias de jornal. Escrevia precariamente suas idéias mirabolantes sobre vários assuntos, entre eles A Doença dos Trens, Chuvas paralisam setor Ferroviário, Maquinistas Loucos, Cidadãos revoltados com Trens Pouco Atraentes. Era um menino muito conversador que adorava pensar e escrever sobre qualquer coisa que fizesse outras pessoas lerem e pensarem, ao ponto de mudarem suas concepções de mundo. Incrível isso para alguém com apenas dez anos.
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Um comentário:
Esse Vicente, pelo visto, ainda vai dar o que falar... Otacílio que o aguarde!
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