Primeiro: parar o meu ônibus, sinal vermelho. Tshh! Parei. Meus passageiros arquearam para a frente por inércia. Coletivo lotado. Alguns em pé, a assediar corrimãos de segurança do interior do ônibus. É isso o que eu vejo pelo espelho interno. O cobrador, ao que me parece, enfastiado de tanta rotina: cansei de olhar sua tintura vinho dos cabelos, corte espalhafatoso metido a Charles Bronson de quitanda – o problema maior foi tingir os cabelos e deixar de lado o tal bigode quase grisalho – enquanto ele separa por entre os dedos as notas do caixa de catraca, a entreolhar, por vezes, os passageiros e ameaçar corresponder com “oi” a algumas cruzadas de olhar que se davam entre ele e os pagantes de todos os dias – todos familiares, nenhuma novidade.
Durante a conferência inútil do conteúdo do veículo que guio, o que dura aproximadamente um segundo e meio, recolho a marcha do câmbio novamente ao ponto neutro. Dirijo-me a vista ao lado de fora, para ver as novidades automobilísticas no tráfego ao redor. Nenhuma novidade. Vejo o painel de instrumentos do meu veículo de transporte coletivo da rede municipal. Tiro com o dedo mínimo esquerdo o pó dos entornos do acabamento em alto relevo do visor do velocímetro. Analiso o que há no dedo, algo maior: um mosquitinho de pernas para o ar, morto. Passo o dedo no trilho do vidro aberto para limpá-lo do mosquito e eis que vejo que ainda faltam vinte e sete segundos para que se libere a passagem neste sentido da via. Isso, mais uma vez, não é novidade.
Bom, vinte e sete segundos suficientes para pescar algo novo de dentro do universo impresso do caderno de um jornal porque, pelo Amor de Deus, acho que ainda enlouqueço dentro dessa máquina se eu não vir alguma coisa nova. E o jornal está dobrado ao lado do banco, à esquerda, ao lado da garrafinha de água. Do lado de fora a única coisa que é nova é um carro branco que parou imediatamente ao meu lado com uma placa de outra cidade do interior de São Paulo – mas isso também não é novidade suficiente.
Abro o jornal sem culpa, faltam vinte e cinco segundos. E me vem uma ardência no nariz, talvez por causa de um perfume irritante de passageira = non-sense + suor². Mas não vai dar tempo de espirrar e tirar o lenço e, espirrar por causa de perfume, para mim, não é novidade. Prefiro ler o jornal, é muito mais negócio. Vejamos o que há...
Colisão entre trem e caminhão na Índia causa 30 mortes: isso não é novo! Plataforma Barra Funda do metrô está abarrotada: ah, isso não é novo! Aeroporto opera sem problemas nos check ins: fascinante! Natal bate novo recorde no terciário: isso é clichê! Calcula-se que na última quinzena de dezembro choverá pelo mês inteiro: grande coisa! Brasília tem dias de sol e temperaturas elevadas em meio a temporada de chuvas: ah, isso é típico! Coroinha de igreja do interior cai e derruba o microfone do padre em missa de domingo: isso não é novidade! Dançarina de axé é pega traindo o marido e perde o rebolado: sem graça! Bom, depois eu termino de ver as manchetes, faltam dois segundos e já me sinto feliz por ver que ainda há novidades por entre as rotinas. Mas quero mais novidades, novidades. Dobro o jornal novamente e guardo ao lado do banco. Confiro mais uma vez o retrato pelo espelho: os passageiros emburrados de calor, o cobrador apara as unhas com uma mini-tesoura articulada dobrável. Novamente, tudo certo.
Embreagem, câmbio alavancado para o engate da primeira marcha lenta: olho no semáforo, um segundo exato... Verde! Pé na tábua, agora ninguém sobe, ninguém desce até chegarmos à Via Norte-Sul. Vrum-Vrum.
Um comentário:
O que eu gostei mesmo foram as manchetes de cada notícia e os comentários mais-que-fundamentais do motorista e que ajudam MUITO na compreensão do post!
=)
Mas, brincadeiras à parte, o post sem dúvida mostra que o trabalho do motorista infelizmente não é orgânico. É algo tão planejado, que os anos da profissão deixou seu cérebro no automático, a ponto de saber precisamente quando um sinal vai abrir e o tempo que tem para fazer alguma coisa para não perder seu tempo, que é precioso.
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