Saindo de casa, foi cautelosamente à bodega ter com o Vicente, filho do Farias, Dono do estabelecimento. Vicentinho tinha em torno de dez anos e tinha paixão por notícias de jornal. Escrevia precariamente suas idéias mirabolantes sobre vários assuntos, entre eles A Doença dos Trens, Chuvas paralisam setor Ferroviário, Maquinistas Loucos, Cidadãos revoltados com Trens Pouco Atraentes. Era um menino muito conversador que adorava pensar e escrever sobre qualquer coisa que fizesse outras pessoas lerem e pensarem, ao ponto de mudarem suas concepções de mundo. Incrível isso para alguém com apenas dez anos.
Ao entrar na venda, Otacílio logo viu o garoto com sua boina e seus apetrechos de jornalista ao fundo do local, longe da chuva e dos respingos, enquanto o pai calculava preços para um casal muito bem vestido, com seus chapéus e uma umbrela.
- Boa tarde! – saudou Otacílio a todos lá dentro – mas que tempo é esse, meu Deus do céu?
- Boa tarde! – respondeu o casal timidamente sem virar o rosto para o protagonista.
- Muito boa tarde, Sr. Otacílio! – respondeu o José Farias – À vontade e chame-me se precisar. Não vos acanheis!
- Vim ter com o garoto Vicente. Soube de uns rumores que andam por aí. Acredito que ele saiba melhor do que eu.
Virando-se para o filho, Sr. Farias enfureceu-se:
- Vicente Armando Goulart Farias! O que anda V. Senhoria espalhando por aí, mais discórdias e heresias? – disse ele bravo, mas num tom sarcástico e carregado de gestos pedagógicos para a criança.
- Desculpe-me papai, mas há um equívoco. Não existe boato algum. Ao senhor Otacílio eu posso dizer a mesma coisa. – o garoto continuou, levantando-se da cadeira e impondo seu pequeno porte - Estive lendo, por estas manhãs setembrinas, a Gazeta Nacional. Fiz uma espécie de análise do período e fiz algumas previsões para o que eu posso chamar de Mudanças Cruciais no Modus Operandi. O que se lê no que escrevo é simplesmente análise, análise, digamos, estrutural da mudança do modo, que é o que eu sinto estar prestes a acontecer. E é melhor se preparar para comprar já o seu relógio viu, papai!
A fala do garoto pasmou a todos no local. O casal que estava de saída tinha até parado para ouvir – espantou-se. Otacílio não acreditava, suava. O pai logo disse, após ajeitar o bigode, “já falei para parar de mexer com coisas de adultos e ir logo brincar com os do seu tamanho, garoto. Guarda esses tinteiros e os papéis. Anda!” Otacílio não suportou aquela verdade toda e lá já se passaram alguns minutos, ao que o garoto organizou suas bagunças e entregou um panfletozinho, cobrando a bagatela de $8,00. Otacílio ralhou:
- Pro diabo, tu, Vicente! Vai me cobrar um oitão? Sr. Farias, censura-o, por favor!
- Vejo que não posso fazer muita coisa por V. Senhoria. É o preço do garoto... De fato ele gastou muito tempo pesquisando para produzir os escritos. – disse o pai, orgulhoso por ver o filho impondo seu preço.
- Dê-me uma boa justificativa para eu deixar morrer um oitão na sua pequenina mão, Vicente, só uma!
Com um ar de altivez e certo do que diz, ao colocar um pedaço de régua dentro do saco, respondeu com segurança e com gestos infantis:
- Meu caro Otacílio, o preço é pouco, o mínimo que pode ser dado em troca de algo que se tornará o registro primeiro de uma futura crise. Lembrar-se-á disso, meu senhor!
Otacílio comprou e leu. Preferiu enrolar o papel, por no bolso e atravessar a rua antes da charrete. Pegar bafo de cavalo na chuva ninguém merece. Chegou à casa todo respingado. Releu atentamente aos escritos do garoto, após outra e mais outra dose de aguardente. Lembrou-se do querosene e acendeu a lâmpada. Estava já escuro e frio. Foi quando levou a lâmpada para a cozinha, cortou um pedaço de Gouda para comer com pão e café frio, era o jantar. Voltou para a sala e alguém bateu à porta.
[NÃO PERCA O FINAL: QUEM BATEU À PORTA DE OTACÍLIO? ALGUMAS SURPRESAS ESPERAM POR VOCÊ! FIQUE LIGADO!]
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