Otacílio comprou e leu. Preferiu enrolar o papel, por no bolso e atravessar a rua antes da charrete. Pegar bafo de cavalo na chuva ninguém merece. Chegou à casa todo respingado. Releu atentamente aos escritos do garoto, após outra e mais outra dose de aguardente. Lembrou-se do querosene e acendeu a lâmpada. Estava já escuro e frio. Foi quando levou a lâmpada para a cozinha, cortou um pedaço de Gouda para comer com pão e café frio, era o jantar. Voltou para a sala e alguém bateu à porta.
- Quem bate? – ao que ninguém respondeu.
- Não conheço surdos-mudos, portanto, V. Senhoria não é bem-vinda à minha casa. Queira se retirar, por favor.
Mais uma vez, três batidas no peito da celulósica barreira. Dessa vez com muito mais força.
- Escute criançada, eu vou abrir. Se for traquinagem, garanto que dou-lhes um apanho que não será palmadinha.
Otacílio abriu.
- De quem se trata?
- Olá, sou eu mesmo. Tenho vários nomes. Pode chamar-me Belzebu.
- O que desejais? Essa não é hora adequada para visitações da vida alheia. Inda mais na chuva. Anda, pode voltar amanhã! Não se preocupe, estarei aqui. A partir das 10h estarei no bistrô central, vou ter com o Prestes, o advogado. Preciso receber uma quantia que me atrasaram. Podereis vir antes disso. Passar bem.
- Senhor Otacílio, acho que não estais a reconhecer-me. Não posso voltar amanhã, nem dia algum. Vim resolver umas questões existenciais.
Otacílio, impregnado de aguardente, não o deteve. Tão logo, não se opôs à entrada do Mentiroso.
Sentaram-se e logo o chifrudo veio a dizer:
- Quero vossa alma, homem de princípios.
- Sinto muito, mas eu gostaria que fosse direto ao ponto, caríssimo Belzebu. Já são horas altas e gostaria de descansar. Amanhã terei um dia agitado. Mas para não fazer desmerecimento de vossa inusitada presença, brindaremos, como mandam os costumes. O trem das 20h já vai passar. – após preparar duas doses cavalares com copos grandes, serviu a bandeja, brindando a chegada do ilustre – Um brinde a vós, tardio visitante. Saúde! – ao que o outro também disse – saúde!
O assunto começou a incomodar profundamente a Otacílio quando o Cousa Ruim disse que o tempo precisava ser preenchido por completo, para não haver tempo ocioso. Levantando-se do sofá, nervoso e muito bebido, meio espalhafatoso, Otacílio disse:
- Não, isso não. Eu tenho o meu tempo e não abro mão dele, de forma alguma, meu caro. Estou muito bem de vida assim, agradeço esta sugestão.
- É assim que funciona, amigo: seríeis mais rico para ter tudo o que vos for vontade.
- Eu já tenho tudo o que quero. Inclusive o dinheiro, mas este atrasou por causa de um embargo das cargas na capital. Felizmente já foi tudo solucionado e meu advogado já tomou as medidas. Receberei, no mais tardar, semana que vem. Até lá, tenho minhas reservas que trago desde maio. Não preciso de mais do que isso.
A conversa se alongou, o trem das 20h passou, Otacílio serviu mais uma dose de aguardente ao Lorde da Discórdia. Otacílio mostrou-se firme e forte em sua convicção de que o tempo é esse, se precisar mudar, ele muda. Mas se não precisar, não muda.
O Diabo interagiu com força:
- Então fique Vossa Senhoria a par das coisas, bom homem: tudo isso que existe está contado, tudo. Os dias de calma findarão, meu caro. Homens serão tão ricos quanto monarcas jamais imaginaram ser um dia. Tudo e todos que conheceis hoje serão passado. E os meus desígnios serão vividos por todos; a Discórdia vai preencher como água as relações humanas. – o satânico ser mediu com o polegar a quantia de aguardente no copo e virou-o, tomou o derradeiro golpe da cana. O Capeta soluçou e sentiu que o teor do seu hálito etílico amargava sua doce atitude de mentiroso. Otacílio viu o azedume no olhar vazio do embriagado anjo decaído.
Prostrado de sentimentos e humildade inabaláveis, Otacílio encaminhou o triste e abalado Belzebu para a porta, enquanto o mantinha apoiado em seu ombro. Encostar-se em Satanás traz um cheiro característico, possível apenas tirá-lo com banho de boas ervas. Desceu pela escadaria de madeira. O silêncio era impossível. Os murmúrios imbecis do visitante, o pisar dos cascos na escadaria e o ofegante respirar de ambos levavam os outros moradores do edifício a pensarem que o próprio Minotauro tinha saído do seu Labirinto.
Chegando à marquise do prédio, Otacílio recostou o traste na parede e lá ele ficou escorado com a cabeça chifruda cambaleante, murmurando.
- Andai, Diabo, tomai Vosso rumo porque o meu contato convosco termina acó. Andai pela tempestade para que essa vossa alma aflita seja limpa. Confiai na chuva, ela é limpa.
Belzebu entendeu a mensagem. Continuou escorado após uma tentativa frustrada de erigir-se. Um joelho dobrou-se e quase caiu. Apoiou-se mais uma vez em Otacílio, que o devolveu desta vez ao poste que havia defronte. O cabisbaixo demônio olhou para cima para ver a intensidade das gotas de água. Aprovou. Encheu o peito, bufou, encheu mais uma vez e erigiu-se, voltou-se para Otacílio e despediu-se. Belzebu limpou o excesso de água da cara. Lamentou-se sozinho. E deu o primeiro e o segundo passos. Andou. Seguiu vacilante pela rua, que molhada de chuva, ofuscava o olhar do ébrio. Otacílio ainda disse:
- Belzebu, se precisardes tomar um trem, é melhor que caminheis rápido.
Otacílio voltou para casa, recolheu-se. Com a cabeça já repousada, sentiu o ambiente, parou por segundos e, então, o trem das 21h30 deu seu apito. Otacílio dormiu tranquilamente ao som da chuva inesperada daquele setembro. Otacílio bem sabia quem era o visitante e descansou feliz por tê-lo despachado mais uma vez, dentre muitas. Aquele traste todos os dias batia a sua porta e todos os dias voltava para o inferno com o rabo entre as pernas. Na rua, Belzebu cambaleou até não ser mais visto.
2 comentários:
Esse Otacílio aí hein...
Parece o meu avô!
Ah, esqueci de dizer:
O Vicente acertou em cheio mesmo sobre o tempo!
Vivemos em tempos sombrios. Da ditadura "tempo é dinheiro"
Postar um comentário