Alguém há um tempo já cantou que o Rio de Janeiro continua lindo. Direi por que com a ação do exército nas ruas da ex-capital nacional o Rio continua a mesma coisa e do qual não se muda uma vírgula.
Sempre se souberam dos narco-problemas fluminenses, sempre. O Rio de Janeiro é um lugar onde o abismo entre ricos e pobres é surreal e secular. Desde quando as pessoas começaram a se alojar nas encostas dos morros da capital do Brasil, há dezenas de décadas, viu-se instalar um contraste rico-pobre tão pior quanto o próprio problema do saneamento básico do século passado: era uma desgraça à saúde pública. Contra as doenças muito foi feito desde as primeiras vacinas e a adoção de procedimentos preventivos contra as mais diversas doenças urbanas, que em sua maioria era causada pela água sem tratamento adequado e pela crescente populacional na província da Guanabara: afinal, tratava-se da capital, portanto, uma pólis promissora. Mas e contra a pobreza? Algo foi feito? Claro que não, porque não tem jeito. Não tem jeito porque quando alguém lucra 1 real, alguém fica sem 1 real; logo: se algumas pessoas são milionárias no Brasil, muitas outras estão ainda procurando o seu pardal. É uma regra de três super simples. Fica claro que não se pode resolver o problema desse tipo de pobreza porque as pessoas que têm dinheiro teriam que dividí-lo com os outros e isso é inadmissível no American Way Of Life ( o que está em voga até hoje). Bom, e há tráfico de drogas no Rio de Janeiro porque há clientela. E vai dizer que é gente do morro que sustenta o crime? Claro que não, são pessoas ricas e turistas. Não tem jeito de pobre sustentar economicamente nada em lugar algum. Só se vê pobre ferrado de drogas na Cracolândia: aquilo, sim, é a derrota total. Portanto, nesse parágrafo conclui-se a origem e o sucesso do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, caro leitor.
A pobreza é fundamental para o tráfico de drogas, pois, para existir o negócio, é preciso quem se sujeite a fazer o serviço: os que não tem onde cairem mortos, os infelizes. Aí fica fácil: o traficante dá uma grana e proteção pro manezão que vai atuar na área, fazendo a contabilidade, a logística. O boa-praça, o boa-pinta, o endinheirado sobe o morro de carrão, pega uns pacotes caprichados e desce feliz da vida porque vai encher o nariz de pó e os narizes dos amigos e amigas nas festas. Isso acontece centenas de vezes por dia, todos os dias. E a droga é cara, não pense que fica barato. Mas pobres são seduzidos a trabalhar nessas condições, e muitas vezes são crianças.
Com a determinação de pontos principais de distribuição nos morros, fica fácil estabelecer limites territoriais: o próprio morro. O morro é posse do traficante: e todos os que lá estão. As pessoas que moram no morro são protegidas, são a comunidade. Um sentimento de família se cria para com todos os pertencentes a comunidade. Porém, nem todos os membros da comunidade são a favor do narcotráfico.
Às vezes, dá a impressão de que nunca as autoridades fizeram nada. O buraco é mais embaixo: os interesses vão além. Membros da polícia já estiveram envolvidos em subornos e até em participações diretas de narcotráfico. Então, nesses casos, é fácil ver que o problema da polícia era a própria polícia.
Finalmente chegam as Forças Armadas para combater e retirar dos mercenários seus territórios conquistados durante décadas. É fato que essa investida será intensa e lenta. Muitos daqueles homens dos morros já morreram e muitos ainda vão morrer, eu espero. Mas a torcida maior é pela tomada dos territórios e nem tanto pelas mortes de traficantes e laranjas. Pois, se for retirado o território de chefes de bando, não há como resistir a assaltos da lei. O Exército veio pra subir o morro.
E é por isso que o Rio de Janeiro continua a mesma coisa do que antes: continua com gente rica, com gente pobre, com gente viciada em drogas, com traficantes. O Rio só está diferente para quem não o conhecia por inteiro. Ah, o exército e a marinha são de lá também. Nada mudou.
Um comentário:
Muito, mas muito excelente mesmo!
É aquilo que eu sempre digo: você já viu plantação de maconha na favela? Não, o que nos leva a deduzir que ela é fornecida a partir de um interesse. Isso porque estou falando da maconha. Imagine as outras.
Pobre tem dinheiro para comprar arma? Mal tem para comprar revolver de pressão, daqueles que até o meu irmão brincou muito na infância. Isso também nos leva a deduzir que os interesses rolam soltos, que a ilusão de que você vai ser alguém sendo um soldado do tráfico é forte e presente.
Toda essa ralé, essa gentalha (como diriam os indivíduos da "high society") é o público alvo dos poderosos. Como você disse, o crime organizado custa caro, muito para um morador da favela.
PS: O american way of life é uma droga, pra não dizer que é uma peste.
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